O conceito de governança clínica já é familiar e frequentemente abordado por quem atua no setor de Saúde. No entanto, há cerca de 20 anos a governança clínica dizia respeito exclusivamente à modernização das práticas de gestão. Atualmente, estamos falando de uma abordagem mais complexa, associando a governança como uma forma de geração de valor na saúde e apta a gerar conexão de forma responsável entre todos os stakeholders.

Mas o que é governança clínica, qual sua importância e o papel para a sustentabilidade e integração de todos os elos do setor? É sobre isso que vamos falar hoje!

Explicando o conceito de governança clínica

Antes de adentrar os pilares e o peso que a tecnologia tem nesse cenário, vale contextualizar sua origem. Esse termo foi usado pela primeira vez em 1997 pelo NHS (Sistema de Saúde Nacional do Reino Unido), apresentando-se como uma nova estratégia para modernizar a gestão do sistema de saúde, com foco em aumentar a entrega de valor no sistema como um todo. Sua definição consiste em

“um sistema através do qual as organizações são responsáveis por melhorar continuamente a qualidade de seus serviços, garantindo elevados padrões de atendimento, diminuindo o desperdício e criando um ambiente de excelência de cuidados clínicos voltado a todas as partes interessadas”.

Isso inclui  pacientes, familiares, médicos, colaboradores, prestadores, compradores de serviços e comunidade.

Sua base de preocupação alia-se aos fatos de que os serviços de saúde são organizações extremamente complexas e de que existem diversos graus de incerteza nas tarefas desempenhadas no dia a dia. Foi a partir daí que se passou a avaliar que uma padronização tão massificada não conseguiria gerar valor para os processos e para a tomada de decisão. Outra reflexão que surgiu nesse período é a de como o setor de saúde, na totalidade, poderia evoluir por meio de processos contínuos de melhoria.

Por sua vez, foi o viés direcionado ao desfecho clínico dos pacientes que fez a governança clínica ganhar força. Assim, os esforços seguem a linha de pensamento que afirma que o importante é prevenir, e não esperar que aconteça um pior resultado.

É claro que, em meio a tudo isso, existem as discussões relacionadas aos novos modelos de remuneração que vão impactar toda a cadeia e fazem parte desse cenário, sempre colocando o paciente no centro do cuidado.

 

A governança clínica no contexto da medicina laboratorial

Para compreender melhor, basta fazer uma analogia. Hoje, falamos muito em governança empresarial, que nada mais é do que garantir que as empresas façam o que elas estão propensas a fazer, sempre pensando em como isso influencia toda a cadeia. Quando trazemos para o conceito de saúde, é muito parecido – o centro de medicina diagnóstica passa a ter uma responsabilidade ainda maior.

No fundo, tudo o que fazemos visa levar a desfechos clínicos mais rápidos, focando na prevenção e em um diagnóstico mais preciso. Desta forma, o modelo de governança clínica – que ganhou força por tornar-se, na revisão de 2021, um requisito da norma PALC – é o passo de reconhecimento do papel do laboratório em toda a cadeia de saúde.

Sabemos, ainda, que a maioria das decisões clínicas é embasada nas informações geradas pelos centros de diagnósticos, influenciando de maneira decisiva a saúde das pessoas. Quando falamos em governança clínica, o ponto central são as empresas, os serviços de saúde, os fornecedores e todos que integram a cadeia. Nesse cenário, a modernização é um processo cíclico e evolutivo – e esse ciclo é cada vez menor. Na saúde, isso vem rompendo barreiras nos últimos anos.

Foi a própria transformação digital que despertou nos usuários a necessidade de exigir mais transparência em sua jornada e até a possibilidade de contribuir para a assistência. Existe, claramente, um movimento de transformação na mentalidade das pessoas, a qual tem sido mais veloz que a vigente nas empresas de saúde.

Portanto, os centros de medicina diagnóstica precisam padronizar cada vez mais os seus processos e contar com sistemas de controle para ter mais ganho de eficiência – o que nunca foi tão exigido como atualmente.

Exatamente por esse motivo, um dos valores nos quais a governança clínica se pauta é a transparência. Ou seja, garantir que todos tenham as informações muito claras, sejam pacientes, médicos, ou equipes. O desafio está em incorporar esses fatores no dia a dia.

 

As vantagens que a governança clínica agrega

A grande contribuição da governança clínica é trazer a decisão para o contexto gerencial e organizacional. Está relacionada a como repensar os serviços de saúde, a qualidade dos cuidados, a segurança do paciente e o combate ao desperdício, por exemplo, através de uma responsabilidade compartilhada entre todos os profissionais, gestores e pacientes.

No passado, ouvia-se muito que exame diagnóstico era commodity. Se o foco for o processo, sim. Porém, em termos de valor essa afirmativa não é verdadeira. É preciso “comoditizar” esse valor, que vai associar a experiência do paciente ao desfecho clínico, pois temos no centro das decisões um indivíduo com necessidades próprias e inseridos em um processo dinâmico.

Com base em tudo que falamos até agora, podemos dizer que um dos principais pontos a se pensar com relação à governança clínica é a necessidade de focar nos cuidados e os benefícios que entregará aos pacientes. Essa relevância deve ficar em pauta nas estratégias das empresas para promover a melhoria e sempre elevar o nível de entrega, o que impactará as partes interessadas.

Estamos falando da  família e do paciente, que cada vez mais quer participar e contribuir em sua própria jornada, buscando maior longevidade e ser preventivo. Esse paciente  já entendeu que contribuir e aderir ao tratamento e aos preparos no exame para ter resultado correto é, de fato, bastante importante.

Existem também as fontes pagadoras que se beneficiarão do uso adequado dos exames e dos procedimentos. Já o médico ganha mais segurança para sua atuação. Afinal, quando olhamos os estudos, cerca de 70% das decisões clínicas baseiam-se em exames complementares. Além disso, a governança clínica estimula a melhoria dos serviços e produtos. Em outras palavras, estamos falando de um conjunto de ações que permite entregar ao paciente o resultado correto, da forma correta e no momento mais oportuno.

Para isso, é importante que os serviços de saúde tenham um ambiente que promova a segurança do paciente e onde cada profissional, na especificidade do seu trabalho, compreenda o seu papel e como ele pode contribuir para geração e entrega de valor, beneficiando as pessoas que utilizam esse serviço.

 

Como começar a pensar nesse ambiente?

 

A governança clínica não é simples, embora faça parte do dia a dia. Trata-se de uma agenda extensa para que se possa fazer o “de-para” dos conceitos e processos nos centros de medicina diagnóstica. É preciso que todos os elos estejam no mesmo nível de maturidade para alcançar objetivo macro e enxergar a jornada como um todo, colocando verdadeiramente o paciente no centro do cuidado.

A Governança Clínica e suas práticas é fundamental nesse sentido. É o que  ajuda a garantir a sustentabilidade do negócio, ajustar esse framework e fazer com que todos estejam na mesma página. Quando toda a cadeia estiver em sintonia, significará ter chegado ao ponto correto. Para isso, deve-se trabalhar alguns pilares: efetividade, eficiência clínica e gerenciamento de riscos – além de auditorias clínicas para identificar todos os pontos de gargalo.

Mas aí vale lembrar que não é só rever os processos e adotar as práticas de governança clínica. É preciso mensurar os avanços, ter entendimento e comunicação da experiência do paciente, bem como gerir pessoas e equipe para que todos saibam o real propósito para que essas ações sejam tomadas.

Esse é o caminho para mudar o mindset, alcançar mais eficiência para toda a cadeia e dar o protagonismo ao paciente em sua jornada. Estamos falando de um processo evolutivo e contínuo com oportunidade para oferecer o melhor desfecho clínico, base da governança clínica.

A telemedicina e a teleconsultoria, por exemplo, permitiram o envio de informações de saúde via consultas on-line e discussões multidisciplinares. Isso facilitou o monitoramento e a redefinição de metas de tratamento e da assistência, impactando diretamente a governança clínica.

Com esses fatores, o paciente está cada vez mais proativo, conseguindo interagir com o médico e usando o conhecimento adquirido por meio desse abrangente leque de informações que pode reunir sobre si. As mudanças se fazem necessárias para atender a esse novo perfil. Uma abordagem colocando o paciente no centro das decisões promove a oferta de cuidados de saúde de alta qualidade e ajuda a refinar ainda mais a governança clínica.

Criar processos em todas as etapas, do pré ao pós-analítico, é crucial para alcançar melhores resultados. Porém, é importante garantir que o plano seja cumprido. A equipe tem que entender sua parte no processo e o impacto dela no resultado.

E é nesse momento que se faz necessário definir quais indicadores serão acompanhados. Isso ajudará a verificar se as ações de governança clínica e os norteadores foram implementados e compreendidos, de maneira que o processo de melhoria contínua ocorra.

 

A tecnologia e a transformação digital como parte da estratégia de governança clínica

Além de processos e pessoas, para colocar a governança clínica em prática, é bem-vindo o apoio da tecnologia. Não há dúvidas quanto à transformação digital e à redução de fronteiras no mercado atual. E quando falamos de tecnologia para a área de Saúde, estamos falando em investimento.

No estabelecimento de processos e de controle, a tecnologia vem para facilitar. E, se bem aplicada (pois para ser efetiva precisa ser estratégica), vem justamente para mitigar a fragmentação do sistema. Quando juntamos governança clínica e suas práticas a ela, temos a combinação perfeita para que consigamos ter tudo o que almejamos dentro da nossa organização e cumprir a atividade-fim. Além disso, pode servir de base para identificar pontos que permitam ampliar a oferta ao paciente, pensando no que a instituição pode fazer, na prática, para contribuir e entregar além do laudo.

O uso de inteligência analítica e Business Intelligence é um exemplo disso, pois fornece dados em tempo real, gerando entendimento de todo processo e proporcionando maior controle. A alta disponibilidade de indicadores para auxílio na tomada de decisão, bem como a rastreabilidade dessas informações, garante integridade, privacidade e segurança, aspectos que fazem cada vez mais diferença. Existe um mar de informações novas sendo geradas diariamente, tanto no âmbito clínico, como no operacional e no administrativo. Saber usá-las para apoiar a tomada de decisão é um grande diferencial competitivo.

Nesse sentido, encaixam-se alguns elementos a serem considerados para viabilizar a saúde dos dados, os quais combinam tecnologia, pessoas e, principalmente, uma mudança de mindset. Outro ponto é a utilização da tecnologia apoiando o aumento da produtividade, a redução de desperdícios e a melhoria no tempo de entrega dos serviços. O uso de ferramentas de inteligência artificial, por exemplo, consegue auxiliar o médico em sua decisão e favorecer o diagnóstico, bem como a prevenção de doenças, o que resulta, inclusive, na melhor utilização dos serviços de saúde.

As oportunidades e necessidades de mudanças são inúmeras nesse cenário, especialmente pelo fato de que tudo está acontecendo muito rápido. Nesse contexto, a necessidade de uma plataforma de tecnologia da informação com foco em medicina diagnóstica capaz de suportar toda a gestão é crucial. Portanto, trata-se de uma decisão estratégica nas empresas de saúde, por sustentar toda a governança e direcionamento dos negócios das instituições.

Soluções que atendam às especialidades de análises clínicas, imagem, anatomia patológica, atuem em todas as etapas da medicina de apoio ao diagnóstico, consigam fornecer indicadores, garantir a qualidade dos processos, entre outros fatores, são extremamente relevantes.

Isso faz parte da governança clínica e é o que ajudará os centros de medicina diagnóstica a adotarem os mais altos padrões de excelência para proporcionar não apenas o melhor atendimento, mas uma melhor jornada. Por meio disso, agregar valor não só à saúde dos negócios, como também à das pessoas.


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